"Estou a deixar as fotografias virem ter comigo"
MINORIA(S): Migrantes Pontuação: 3 | Sentimento 0.0
DATA: 2011-02-13
SUMÁRIO: Teve mais do que uma vida como fotógrafo. Fixou a realidade de um país sob ditadura, depois arrumou o assunto, depois voltou à fotografia fixando a aparência das coisas. Se pudesse começar de novo, agora, Gérard Castello-Lopes diz que iria fotografar os novos imigrantes, "que vão dar uma volta a isto dentro de uma ou duas gerações".
TEXTO: Sim e não. Porque sim, que é como quem diz, porque não? "Oui Non", a mais ampla retrospectiva da obra de Gérard Castello-Lopes, abre hoje no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa. São cerca de centena e meia de fotografias, realizadas entre 1956 e 2003, com longas interrupções e outros intervalos pelo meio. Há duas décadas, quando António Sena o convidou a fazer a primeira retrospectiva na Galeria Ether, Castello-Lopes ainda só tinha tido a sua primeira vida como fotógrafo e, julgava ele, era um assunto arrumado. Não foi. Não é, mesmo que, aos 78 anos, fale de um "pseudo-adeus". "Hoje sinto que estou a deixar as fotografias virem ter comigo", diz nesta entrevista. Em Março, a Assírio & Alvim edita "Reflexões sobre Fotografia", uma recolha de textos produzidos para conferências e publicações. PÚBLICO — A primeira e última retrospectiva, em 1982, relançou-o, demarcando o seu papel no contexto da fotografia portuguesa e, ao mesmo tempo, incentivandoo a voltar a fotografar. E "Oui Non", como é que surge? Gérad Castello- Lopes— É uma coisa um bocadinho misteriosa. Não sei se por via da idade e de um desfalecimento natural, senti que tinha de fazer, não bem uma despedida, porque não estou na disposição de deixar de fotografar, mas já não tenho a energia necessária para ir à procura das fotografias. Faltam-me a paciência, as costas, as cruzes, falta-me, de certa forma até, o entusiasmo e a curiosidade. Portanto, essa espécie de adeus ou pseudo-adeus, pensei muito onde é que o poderia fazer e o único sítio que me ocorreu foi o CCB, que, surpreendentemente, aceitou. Porquê surpreendentemente? Nunca achei que era excepcional ou muito bom fotógrafo. Muito bons fotógrafos foram homens como Ansel Adams, Minor-White, Henri Cartier-Bresson, Soudek, JacquesHenri Lartigue, W. Eugene Smith, cada um no seu género, e "pourqúoi pás?". Sebastião Salgado, por quem tenho uma admiração enorme. Nunca achei que estava à altura da fasquia que essas pessoas atingiram. Por outro lado, acho que a modéstia não deve entrar em linha de conta: se alguém entendeu que podia mostrar as minhas fotografias, é porque não deixam as pessoas completamente indiferentes. Sendo uma exposição tão abrangente e contendo vários percursos, fica-se com uma ideia de continuidade, algo mais forte do que a cronologia. Não será por acaso que se mostram, lado a lado, duas fotografias de Paris, junto ao Sena, em 1958 e 1985, que podiam ter sido tiradas na mesma altura. Isso é uma coisa que me aquece o coração ouvir. Significa que há uma conexão qualquer, misteriosa talvez, no meu olhar. Mas é algo de que já se tinha dado conta, supõe-se. A Danièle [sua mulher] e eu continuamos, às vezes, espantados quando, por acaso, se põem duas fotografias minhas, uma ao lado da outra e, geometricamente, são a mesma. Daí a ideia que tenho há muito de uma coisa que chamo a teoria dos arquétipos: cada um olha para d real de uma forma que lhe é única. Houve um hiato de 17 anos na sua produção. Quando recomeça, nos anos 80, não na nada que mude no acto de fotografar? Completamente. A opressão, a tristeza, ' a miséria que quis fotografar em pleno Estado Novo, isso para mim era uma provavelmente errada obrigação moral de dar testemunho. A abertura do meu olhar para o mundo das pessoas que trabalham com as mãos, nos campos, nas fábricas, na rua, foi também uma terapêutica. Isto tudo começou a desaparecer a partir de 1982 porque houve um problema moral que se impôs e que nunca fui capaz de resolver: como é que se fotografam pessoas que não querem ser fotografadas?Apesar de tudo, a fotografia não abandonou as pessoas. Mas foi a decisão que tomei em 1982. Porque fui insultado, vilipendiado, ameaçado, preso.
REFERÊNCIAS:
Palavras-chave homens mulher género espécie