O Amor de Perdição e a Fotografia
MINORIA(S): Migrantes Pontuação: 2 | Sentimento 0.5
DATA: 2013-08-19
TEXTO: O Porto é granítico pelas liberdades. João Chagas foi escritor, infelizmente muito esquecido. Político, entre muito mais. É do número daqueles que foram presos e torturados. Por ser um homem livre, lutador pela liberdade e pela justiça. O poder de ontem, de hoje, de sempre, odeia os homens livres. Detido na Cadeia e Tribunal da Relação do Porto e deportado para Angola. Com outros, deu o nome ao Campo dos Mártires da Pátria. Aqui fica o jardim, oficialmente de João Chagas. Popularmente da Cordoaria. A cidade também é romântica. Estando no jardim, de costas para o Palácio da Justiça, tem, muito ao fundo, o Douro na sua corrida contínua e veloz para o mar. À sua frente, um largo de granito. Largo do Amor de Perdição, assim designado desde Dezembro de 2012. Com uma grande estátua. É Camilo Castelo Branco, escritor do amor, abraçado a Ana Plácido, seu amor fatal. É a estátua do Amor de Perdição. Os homens grandes são também grandes no amor. No largo, desde 1997, está instalado o Centro Português de Fotografia (CPF). Aqui, onde foi a Cadeia e Tribunal da Relação do Porto, Camilo e Ana Plácido cumpriram prisão, por um ano e dezasseis dias, por um crime gravíssimo: o crime de amar. O escritor teve a sua cela na sala S. João de onde observava o Douro. Partilhou-a, dizem, com um suposto salteador, José do Telhado, também aí preso. Este concedia-lhe protecção contra os perigos da cadeia, aquele deu-lhe protecção jurídica. Consta. Aí escreve o “Amor de Perdição” e outras palavras. Hoje, Dia Mundial da Fotografia, revisite a história no CPF. Fale e troque impressões com Camilo e outros presos de renome que ali estiveram. O Duque da Terceira, António Bernardino Brito e Cunha, um dos enforcados e decapitados pela força totalitária miguelista. E muitos não tão nobres. Transmitem-nos uma verdade que sabemos. A liberdade não é oferecida, é conquistada todos os dias contra a opressão, clara ou às ocultas. Tem mil pés como as centopeias. Toda a gente sabe isso. Visite o CPF e pense um pouquinho nisso se estiver para aí virado. Aproveite, gratuitamente, o seu programa cultural. No CPF vai encontrar arte. A fotografia é também arte em forma de imagem. Observe, na exposição fotográfica comemorativa dos duzentos e cinquenta anos da Torre dos Clérigos, fotos de arte e da História do Porto de muitos fotógrafos consagrados. Artistas. Atente nos milhares de câmaras fotográficas expostas. E olhe as fotos dos nobres, escritores, jornalistas, médicos, gente lutadora pela liberdade que lá esteve presa. Lembre Marilyn Monroe eternizada não só pela sua rara beleza, pelos amores, arte cinematográfica, mas sobretudo porque Bert Stern, um fotógrafo de raro talento, em três dias, num quarto de hotel, deixou à Humanidade cerca de duas mil imagens da estrela. Olhe bem as fotos dos “ presos comuns”, com chapa numérica identificativa no peito, cabelos despenteados, desgrenhados, olhar aterrado. Retratam desilusão, sofrimento e dor. Fotos da vida de gente do povo. Se quiser, pode reclamar Sebastião Salgado. Com centenas de fotos dos “Sem Terra”, desesperados, reprimidos, ignorados do mundo. Pobre é pobre, na cadeia ou nas terras dos outros. Preserve aquele pedaço de história. E de arte.
REFERÊNCIAS:
Partidos LIVRE